Human, All Too Human

Em tempos de crise…escrevo

Estava a chover e a paragem de autocarro encontrava-se apinhada de gente. É curioso como os dias de chuva têm um impacto sobre as minhas ideias. Ao contrário do que eu poderia esperar, em vez de me lavarem e me deixarem o cérebro como uma tela em branco, têm o efeito oposto. É nestes dias em que a minha mente, tal como a paragem de um autocarro, se encontra apinhada de ideias - normalmente do foro existencial - sobre a incógnita que se projecta no meu futuro.   

Na imagem do meu caminho vital, imagem esta que foi adquirida através de copy paste de uma fotografia cliché, encontro a cada passo um ponto de interrogação que se vai acumulando tal como aquelas moedas nos jogos do Super Mário. A única diferença entre o que é acumulado por mim e o canalizador italiano vestido de encarnado, é que no caso dele as moedas têm valor monetário virtual enquanto que as minhas perguntas só vão acumulando indecisão e um certo desconforto que penso que qualquer jovem sente.  

Contudo, ao contrário de muito jovem que conheço, eu tenho um handicap brutal: nasci com um espírito démodé. Hoje em dia, dou-me conta que os meus gostos não acompanham este século: amo andar a pé e não tenho vergonha de admitir que não possuo um carro (na verdade até tenho algum orgulho nisso, para espanto de muitos); detesto pagar 12€ para ser uma sardinha enlatada num local onde dançar pelo prazer que esta actividade dá não é, claramente, o objectivo mas sim uma forma de exibição das potencialidades tanto dos predadores como das presas que aguardam a oportunidade de levarem algo para casa (normalmente o orgulho enaltecido por um qualquer contacto físico que para a minha personalidade careta não faz qualquer tipo de sentido); ainda acredito que a felicidade está na alma da pessoa e como esta se apresenta, e não na quantia impressa no extracto bancário; devo ser dos poucos espíritos que tem um enorme fascínio por trabalhar atrás de um balcão só pelo prazer que tem em conhecer e conversar com pessoas; e por fim, acredito que o propósito da cultura e do conhecimento está para lá de um canudo ou de um título académico.

O único motivo pelo qual escolhi a licenciatura em que me encontro foi para aprender a viver. Desde sempre que faço da observação do ser humano o meu hobby predilecto. O que é que me interessa saber se serei capaz de citar o autor x se não souber aplicar o que este me ensinou no meu dia-a-dia? Para parecer inteligente? Talvez o valor dos pontos de interrogação no meu percurso não apresentem um valor imediato como os do jogo do Super Mário, contudo, não tenho dúvidas de que as questões às quais vou conseguido responder são o motivo pelo qual mantenho o meu vício pelo saber. Não porque dê jeito em eventos sociais mas sim, porque me permite dar mais um passo.  

A única coisa que posso partilhar com esta geração de almas mais jovens que a minha, é que encontrem força para ir contra este sistema que nos faz crer que a finalidade da educação e de uma licenciatura está na promessa de aquisição de meios para bens materiais ao invés de nos ensinar a viver sem a ilusão de que precisamos de carros desportivos como meio de seguir o nosso percurso vital de modo mais suave.  

Sim, o Super Mário pode ter moedas em vez das minhas dúvidas flutuantes, mas no fim do “jogo”, nenhum objecto me dará a paz de espírito que adquiri ao confrontar-me com as minhas lacunas existenciais.  

Uma vez li: “O sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder entusiasmo.” Se aplicar isto à minha vida, o verdadeiro sucesso está na vontade de encontrar uma resposta para cada ponto de interrogação que me surgir no caminho. Enquanto for esta a utilidade e a importância que dou ao conhecimento, sei que estarei bem para grande consolo deste meu self antiquado. 




blog comments powered by Disqus
Profundamente fútil e relativamente profunda
"Cento" Copyright © Andrew Brinker 2011.